Por: Patrícia Mendonça, estudante de jornalismo

A Bienal do Livro entende que não é possível construir discussões e conhecimentos realmente críticos sem incluir a perspectiva de gênero. Consideramos fundamental dar visibilidade ao protagonismo feminino, tendo em vista a sistemática ocultação das mulheres na história, apesar das grandes conquistas e das lutas travadas por elas nas diversas culturas.

Portanto, unindo o nosso compromisso com a resistência feminina e a paixão pelas ações que disseminam a educação e o progresso da sociedade, sejam elas por meio da literatura, cultura, arte, política, ciência e pelo conhecimento popular, a Bienal aponta 5, entre as tantas ilustres alagoanas, que ganharam notoriedade pelos seus grandes feitos.


Débora Diniz Rodrigues





Foto: Carlos Moura/SCO/STF
Reconhecida como uma das figuras mais importantes a respeito da descriminalização do aborto na América Latina, a alagoana, cientista social e antropóloga Débora Diniz é professora universitária, pesquisadora, ensaísta e documentarista (entre outros feitos que não são de conhecimento da Bienal, rsrs). Além de ser ativista de causas como o feminismo, bioética, direitos humanos e saúde.

Nascida em Maceió na década de 1970, Débora desde cedo despertou o interesse pelas Ciências Humanas. Dedicação tamanha que a fez contribuir de maneira significativa para a ciência e, por consequência, conquistar importantes premiações na área, como o prêmio Jabuti, e respeito internacional, sendo homenageada, inclusive, pela Unesco.

Recentemente, em 2018, a alagoana foi perseguida e ameaçada a ponto de ter sido incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, do Governo Federal. À época, segundo entrevistas concedidas a jornais de circulação nacional, Diniz saiu do país depois de sofrer uma série de linchamentos virtuais e ameaças, quando foi alvo de haters.

Sua biografia detalha que Débora Diniz é graduada em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (1992), concluiu o mestrado em Antropologia (1995) e o doutorado em Antropologia (1999) na mesma universidade. Realizou estágios de pós-doutoramento no Instituto de Medicina Social da UERJ (2003), na Universidade de Toronto — Faculty of Law (2010) e na Universidade de Michigan — Law School (2010).


Dandara dos Palmares




Essa ilustre é uma das mulheres mais emblemáticas no que diz respeito à visibilidade da população negra em nossa sociedade.

Infelizmente, existem poucos registros historiográficos oficiais sobre Dandara. O que se sabe é que, ainda jovem, ela integrou a liderança do movimento negro durante o século 16, no Quilombo dos Palmares, o mais emblemático dos quilombos formados no Brasil colonial, situado no município de União dos Palmares e estabelecido na Serra da Barriga, na então Capitania de Pernambuco, atual região do estado alagoano.

A guerreira, no sentido literal da palavra, participava da elaboração das estratégias de resistência do quilombo, dominava técnicas da capoeira e lutou nas frentes de batalha por não aceitar negociações com escravocratas e nos constantes ataques ao Quilombo dos Palmares.

Foi em terras alagoanas que a ilustre cresceu, viveu e resistiu; motivo de orgulho e admiração para o estado. Não se sabe se Dandara nasceu no Nordeste brasileiro ou no continente africano, porém os registros apontam que ela viveu, desde muito pequena, no Quilombo dos Palmares.

Dandara foi companheira de Zumbi dos Palmares, com quem teve três filhos. A guerreira morreu resistindo. A história da jovem heroína revela que ela se suicidou em 1694, quando foi presa, preferindo a morte a voltar a ser escrava. Hoje, Dandara não só se faz presente em histórias contadas por descendentes dos quilombolas e protagoniza discursos de ativistas dos movimentos sociais, mas também tem começado a ocupar o lugar de visibilidade que merece na história brasileira.

Motivo de orgulho do povo de Alagoas, Dandara é tema de obras de duas as atrações da 9ª Bienal: a escritora Jarid Arraes, autora de As lendas de Dandara, e Jeans Lins, que discutirá o processo de criação de sua HQ sobre a guerreira.

Virgínia Moraes da Silva





Mais conhecida como mestra Virgínia, essa ilustre muito contribuiu para a cultura alagoana por meio dos seus vastos conhecimentos populares. Dotada de muitas habilidades, foi mestra de reisado, rezadeira, benzedeira, parteira, autora e intérprete de poesias e de músicas.

Maceioense, nascida em 1916, a estra Virgínia, apesar de ter seus feitos reconhecidos no que diz respeito à produção e à preservação de aspectos da cultura tradicional e da cultura popular, não chegou a receber o merecido título de Mestre do Patrimônio do Estado de Alagoas (RPV-AL), visto que ela faleceu em 2003, pouco antes da criação da lei que define os mestres da RPV-AL, em 2005. Ela viveu até os 97 anos.

Descrita como “autêntica e ingênua”, a imortal da cultura popular encantava pessoas do campo da pesquisa, da educação, da etnomusicologia, do folclore e, principalmente, encantava a plateia, com suas músicas originais.

Foi em Rio Novo, bairro de Maceió onde ela viveu, que a mestra se dedicou ao coco de roda e criou o reisado e o Trio Três , formado por seus filhos: Erivaldo Domingos da Silva (sanfoneiro), Maria Vânia Domingos da Silva (triângulo) e o amigo José Ailton (zabumbeiro); o grupo permanece resistindo nos dias atuais.

A mestra tem protagonismo e reconhecimento ainda nos dias atuais. Recentemente, a Prefeitura de Maceió inaugurou, em Rio Novo, o Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Mestra Virgínia Moraes da Silva. A mestra teve também a sua história contada em filme de Celso Brandão e Cintia Ribeiro, e teve seus feitos registrados em um livro de Schuma Schumaher, que tem como tema “a participação das mulheres na história de Alagoas”.


Mãe Neide Oyá D'Oxum


Foto: José Feitosa

Sinônimo de resistência, Mãe Neide Oyá D'Oxum é referência na disseminação das religiões de matriz africana em Alagoas. Em 2011, a arapiraquense recebeu o título de Patrimônio do Estado de Alagoas (RPV-AL) pela sua atuação na difusão da cultura afro-brasileira.

A ilustre, além de ser uma liderança religiosa, é ativista social, cultural e do movimento negro, sendo reconhecida não somente no estado natal. Em 2017, Mãe Neide foi homenageada em Brasília, quando recebeu o título de Comendadora, pela Ordem do Mérito Cultural, concedido pelo então Ministério da Cultura (MinC).

A Secretaria de Cultura do Estado (Secult) diz que “aos 13 anos de idade, através da Federação Espírita em Arapiraca, levada pela curiosidade, a jovem Neide foi em busca da compreensão das questões ligadas às religiões de raízes africanas, a fim de esclarecer fatos ocorridos em sua vida e na de sua família. Hoje, com mais de três décadas de religião, Mãe Neide criou em 1984 o grupo para auxiliar o entendimento e o contato dos jovens com a religião espírita, desenvolvendo paralelamente diversos projetos de inclusão social, grupo de dança e capoeira”.

Em 1994, com a fundação do Grupo União Espírita Santa Bárbara (Guesb), no bairro Village Campestre, em Maceió, Mãe Neide passou a associar a religião com trabalhos sociais. A partir de então, criou o projeto Inaê, ofertando cursos de costura, dança, teatro, música e outras atividades que promovem a geração de emprego e renda para a população da comunidade.

Ao longo de sua vida, Mãe Neide recebeu diversos títulos, como o Mérito Cultural Zumbi dos Palmares (2010) e o Nise da Silveira (2011). Além disso, ganhou o título de cidadã maceioense (2014) e o de cidadã Palmarina (2013). Também foi vencedora do Prêmio Palmares em 2012.


Carmen Lúcia Dantas


Foto: reprodução/ redes sociais


Essa ilustre é uma apaixonada pela preservação da memória e do patrimônio histórico, além de ser amante da literatura brasileira, e ambos os amores tornaram-se sua formação e atuação profissional, o que a fez contribuir de maneira muito significante para o empoderamento da cultura alagoana.

A penedense é graduada em Museologia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; mestra em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Alagoas; e aperfeiçoou-se em Planejamento Urbano e Patrimônio Cultural em Berlim.

Carmen Dantas é pesquisadora e entusiasta da cultura popular, é autora de títulos importantes a respeito das raízes de Alagoas. Dona de um senso crítico avassalador, a alagoana é considerada referência no que diz respeito ao conhecimento científico da história e da cultura do estado alagoano.

Entre as suas dedicações, Carmen Dantas é museóloga do Théo Brandão, museu de antropologia e folclore da Ufal, já tendo sido diretora da instituição, tendo a sua gestão reconhecida como fundamental para a recuperação da instituição e implantação em Alagoas de uma consciência museológica.

Sua biografia dá conta de que ela está entre os responsáveis pelo levantamento do Acervo Histórico e Artístico das cidades de Penedo e Marechal Deodoro. Carmen faz parte do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Brasileira de Museologia. Considerada uma mulher protagonista do seu tempo, seu nome está incluído no Dicionário de Folcloristas Brasileiros.