Gêmeas utilizam redes sociais para incentivar colegas a participarem do evento

Foto: Felipe Nyland/Gazeta de Alagoas


Por: Patrícia Mendonça, estudante de jornalismo


A Bienal Internacional do Livro de Alagoas é, antes de tudo, um lugar de histórias. Muitas vezes elas estão nas páginas dos livros, na boca do contador e da contadora, em cima do palco; outras vezes, surgem no dia a dia, a partir pessoas como nós. É o caso das gêmeas Anny Beatriz e Anna Gabriele Alves, de apenas 10 anos.

Ansiosas pela 9ª edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas, as irmãs há meses estão juntando dinheiro para comprar livros no maior evento literário do estado, que está programado para acontecer entre os dias 1º e 10 de novembro, no bairro de Jaraguá. Com muito esforço, as crianças já arrecadaram exatamente R$ 82,70, que já têm destino certo: a aquisição de novos exemplares dos diversos gêneros literários.

Nascidas na era digital, as crianças utilizam suas contas nas redes sociais para incentivar amigos e colegas a desenvolverem o hábito da leitura. De acordo com a mãe, as meninas são verdadeiros prodígios, pois aprenderam a ler e a escrever aos 5 anos de idade e, desde então, têm devorado livros como uma forma de lazer.

Uma das gêmeas, Gabriele disse que já leu mais de 50 obras e que estas foram lidas, também, pela irmã. Elas compartilham os exemplares. “Eu tenho uma parte do meu guarda-roupas e um baú inteiro cheio de livros, nós já lemos todos eles. Devo ter lido mais de 50. Eu gosto de ficção científica, ação, aventura e histórias em quadrinhos”, disse Gabriele.

Sobre os compartilhamentos e indicações da Bienal nas redes sociais, Anny Beatriz disse que acha importante informar às amigas sobre o evento literário. “Como sou interessada pela Bienal e tenho conversado com as minhas amigas sobre o evento, resolvi gravar o vídeo no Instagram. Nele eu disse que gosto muito da Bienal, disse que estarei presente nesta edição e recomendei para as minhas amigas irem também”, disse Beatriz, que tem a desenvoltura de uma verdadeira influencer.

A Bienal ficou ciente da história por meio de uma das publicações de uma das irmãs no Instagram; publicação na qual ela citava a ansiedade para o início do evento e o seu empenho em juntar dinheiro para adquirir novos livros para sua coleção. À época, a Bienal acreditava que era apenas uma garota envolvida nessa missão, e tamanha foi a surpresa quando a organização do evento soube que os esforços eram dobrados.


 Foto: Felipe Nyland/ Gazeta de Alagoas

Luta por uma boa educação


Como muitas famílias brasileiras, a das garotas também batalha todo dia para se manter, mas ela também se desdobra em duas, pois vê na educação um futuro para suas flhas. “Eu sou merendeira, ganho apenas um salário mínimo, mas, para completar a minha renda e a do meu marido, vendo cosméticos para tentar dar conforto e uma educação melhor para os nossos filhos”, revelou Gilvaneide Alves, mãe das garotas.

À reportagem diz que costuma levar as garotas para a escola onde trabalha. “Lá tem uma biblioteca, e as meninas adoram, passam o tempo lendo. Acho impressionante. Acho que já leram a biblioteca todinha”, brinca.

Cientes das dificuldades, as crianças dão a sua ajuda. “Já faz meses que elas guardam todo trocado que a gente dá para elas com a intenção de usarem na Bienal. O tio vem, deixa dois reais, e elas guardam. O troco que sobra do mercadinho, elas guardam; às vezes são só 10 ou 5 centavos, e, mesmo assim, elas pedem para guardar”, disse, num tom de orgulho.

Vale-livro

Na primeira Bienal que as gêmeas puderam comparecer, em 2015, quando ainda tinham 5 anos, elas ganharam o vale-livro — um projeto da Prefeitura de Maceió, que repassa a quantia de  R$ 15 para estudantes do município adquirirem uma obra literária que lhes for de interesse —, o que para elas foi uma verdadeira festa.

“Elas sempre traziam livros da escolas para lerem em casa. Mas, um certo, dia foram para a Bienal e ganharam o vale-livro. Muito contentes, as meninas trouxeram os livros para casa. Mas, como de costume, levei os livros de volta para escola, então foi quando a professora disse que as obras eram delas e que haviam ganhado por meio do projeto da prefeitura. Isso foi motivo de uma felicidade imensa para elas”, contou a mãe.

No entanto, este ano, as meninas estão matriculadas em um colégio particular e ganharam bolsas de estudo pelo fato de o irmão delas, Bruno Vinícius Alves, de 13 anos, também ser dedicado aos estudos e ao esporte. O empenho dele o levou para o Campeonato Nacional de Xadrez, em Brasília, tudo custeado pela escola. As garotas também foram vice-campeãs em ginástica rítmica em 2016, o que também influenciou para conseguirem a bolsa. Porém, o fato de as meninas não estarem frequentando a escola municipal não excluiu a possibilidade de adquirirem seu vale-livo para a Bienal deste ano.

Encantada com a história das garotas, a Comissão Organizadora da Bienal do Livro de Alagoas, através da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal), vai conceder um vale-livro no valor de R$ 50 para as estudantes, que elas poderão pegar no estande da editora durante o evento.

O amor das crianças pela leitura é tão grande que já causou até preocupação. “A diretora da escola que elas estudavam chegou a vir conversar comigo para dizer que estava preocupada com a socialização das meninas, pois durante o intervalo elas iam ler. Tivemos que estimular que elas voltassem a brincar com as outras crianças”, disse a mãe, concluindo que uma das garotas, a Gabriela, além de boa leitora, é também escritora, e que tem o sonho de publicar seus escritos. Certamente, outras histórias surgirão.