Por: Benedito Ramos

Caso não tivesse participado da reunião entre o presidente da Associação Comercial de Maceió, Kennedy Calheiros e a Reitora da Universidade Federal de Alagoas Maria Valéria Costa Correia com sua equipe, não acreditaria nas ideias, quase utopias, que foram tratadas sobre a instalação da 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Contudo, como um defensor de plantão do Bairro de Jaraguá, tinha certeza da materialização do projeto, embora me preocupasse com a mobilização do público para preencher o vazio de ruas, largos, praças, becos e vielas desse sítio histórico que tanto amo. 

Para um espaço urbano que vive adormecido no esquecimento público, mesmo sendo morada da Casa Legislativa e Gabinete do Executivo municipais, Jaraguá precisava, realmente, desse farol que, além de proporcionar maior visibilidade ao bairro, permitiu que se avaliasse o seu potencial empreendedor.  Afinal, se trata de uma das últimas reservas urbanas, mais próxima da área metropolitana, com amplas possibilidades comerciais e habitacionais, que por alguma razão fenece, sem ser, devidamente, aproveitada. 

Com mais de 300 mil visitantes e participação de 900 escolas, a Bienal do Livro quebrou o paradigma da centralização das atividades, num único espaço como estratégia para a formação de público. Um bairro inteiro dividido por setores permitiu a ampliação das atividades de comércio, conhecimento e, sobretudo, as apresentações lúdicas, culturais e artísticas. Acrescentando, como última atração, o carnaval de encerramento com o bloco Filhinhos da Mamãe. 

O Palácio do Comércio, a sede da Associação Comercial de Maceió, funcionou como um quartel-general  dos maiores eventos, conferências, muitas delas superlativas, a ponto da escadaria da porta principal ser usada como palco, enquanto o grande público se espalhava ao redor da Rua Sá e Albuquerque. Momentos de apoteose que reverberam até hoje nas mentes dos espectadores. Mais ainda, a programação solidária com escolas especiais, que se revezava com apresentações culturais do folguedo alagoano. Tudo isso no palco da escadaria, que em alguns momentos, mais parecia a Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, onde cada um procurava um lugar para se apoiar e assistir. Ainda assim, um corredor humano tinha que se abrir em diversos momentos, para permitir o acesso de estudantes até o interior do palácio, onde outras atividades aconteciam simultaneamente. Sem esquecer, do alumbramento das pessoas que não conheciam a paisagem urbana de Jaraguá, sobretudo, ter entrado no Palácio do Comercio ou no Museu da Imagem e do Som. 

Mais de 60 novos livros foram lançados durante a Bienal entre o Stand das Academias e o Arquivo Público de Alagoas. Alguns com verdadeiras multidões em torno do autor. Não estamos falando apenas do lado intelectual e cultural da Bienal, mas,  do fluxo comercial que foi gerado dessas oportunidades. Imagine, se o bairro, dotado de estacionamento tão amplo, tivesse uma grande e boa livraria. A questão é que isso tudo poderia ser transformado num grande Shopping, diversificado de produtos para atrair todo o tipo de consumidor. O bairro mostrou que tem potencial para se transformar num amplo comércio, como já foi. 

Durante esses dez dias, a Bienal do Livro fez Jaraguá despertar para a vida, em meio ao burburinho de gente, entre 10 da manhã  até às 22 horas, circulando pelas suas ruas. Quantos pequenos empreendedores ganharam com essa movimentação? Quanta gente recebeu remuneração por um trabalho temporário? Quanto dinheiro circulou na cidade? Nessa dinâmica de negócios,  o produto e o serviço foram moedas de troca na atividade cultural, coisa  imperceptível na atual conjuntura do país como um freio nos financiamentos e patrocínios do setor. A 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas mostrou o que representa a atividade cultural num dos últimos territórios do Índice de Desenvolvimento Humano nacional.