Por: Enio Lins*

Quando as professoras-doutoras Valéria e Elvira, esta diretoria da Edufal e aquela Reitora, vieram com a ideia da IX Bienal do Livro ser realizada no bairro de Jaraguá, confesso ter tido certa dúvida, algum temor.  

Magnífica a sacada da reitora e da diretora, mas daria certo na prática?

Me recordei da primeira Bienal, então chamada do Livro e da Arte. Ocupou as instalações do Iate Clube Pajussara (com ss), sob a batuta da Edufal pilotada pela professora Leda Almeida. Daí em diante, passou pelo Clube Fênix Alagoana, por um conjunto de tendas montadas na praia de Pajuçara (com ç) e se instalou – aparentemente para sempre – sob a grandeza do Centro de Convenções. Em todas essas experiências, todas vitoriosas, a bienal tinha 100% de teto. Isso garantia ampla movimentação matutina e vespertina, sem dar a mínima para o máximo de calor do sol de verão. A garotada, grande trunfo da Bienal, circulava com desenvoltura pela manhã e pela tarde, em excursões culturais promovidas pelas escolas públicas e privadas. Aquela multidão em múltiplas fardas sempre marcou, foi característica própria, reafirmação na esperança de um futuro melhor. A cada dois anos a cena alvissareira se repetia, enchendo olhos e ouvidos com as cores e sons da alegria de um leitorado juvenil e gigantesco. Isso se repetiria debaixo do solzão de novembro? Como ficariam as ruas de Jaraguá em pleno começo do verão tropicaliente?

Ah, Jaraguá topou de gente de todas as idades o tempo todo. Dez dias de calor cultural.

Em todas as horas, ruas e casas cheias. Filas intermináveis para entrar no Armazém principal, filas em todos os endereços. Palestras concorridas, sessões de autógrafos mais assemelhadas a dia de feira em tempo de liquidação de estoque. Livros sendo vendidos mais que peixe em Semana Santa.
A Bienal de Jaraguá marcou época! Veio para ficar, chegou para transformar – era ótima ficou espetacular. Espetáculo do saber, avidez pelo conhecimento. E mais, a população ganhou as ruas do velho bairro com posturas de afirmação, de combate aos preconceitos, de enfrentamento à censura. Casais dos mesmo gênero desfilavam de mãos dadas, pessoas de todas as cores, todas as idades, (quase) todas as ideologias  se abraçavam, confraternizavam-se como num ano-novo da sabedoria. Belos dias e noites!

Números, não os sei ainda. Mas até acho secundária a precisão quantitativa frente à grandeza qualitativa testemunhada in loco.
 
Umas das cenas mais marcantes, a meu olhar, foi constatar a multidão entupindo a rua Sá e Albuquerque, parte dela sob o sol nada camarada das 14, 15 horas de um domingo, esperando o momento de ouvir a comuna Manuela D´Ávila falar sobre feminismo, comportamento, política e ideologia. Num tempo no qual se endeusa redes sociais, fake News, menos de 20 caracteres para supor uma mensagem ser eficiente, nesse tempo um tanto quanto kafkiano e de culto à ignorância e intolerância, testemunhar milhares de pessoas sob o sol prestando atenção a um discurso ousado e contestador foi algo capaz de recarregar todas as baterias.

Evoé Bienal do Livro de Alagoas!!!

Pensando bem, Bienal já era – o sucesso estrondoso da versão 2019 indica ter chegado o tempo da Anual. Anual do Livro de Alagoas, pois a ânsia pelo saber é muito grande. O futuro, melhor e mais culto, está querendo chegar.

(*) Jornalista, Chargista, Secretário de Estado da Comunicação, Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Exerceu os seguintes cargos: Presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFAL, Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas, Vereador por Maceió, Secretário Municipal de Cultura de Maceió, Secretário Estadual de Cultura de Alagoas, Diretor Cultural da Associação Comercial de Maceió, Presidente do Iteal (Rádio e TV Educativa), Editor-Adjunto da Gazeta de Alagoas, Coordenador Editorial da Organização Arnon de Mello.