Em bate-papo, Lola Aronovich relatou o enfrentamento aos grupos misóginos na internet

Texto: Lenilda Luna
Fotos: Renner Boldrino


O bate-papo com Lola Aronovich aconteceu no imponente prédio da Associação Comercial, na manhã desta quarta-feira (6), dentro da programação da 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, no bairro do Jaraguá. O público, a maioria de mulheres, acompanhou de forma atenta a apresentação da blogueira feminista. À medida que a narrativa se desenrolava, era possível perceber, nos rostos, o espanto, a empatia e a admiração pela coragem e tranquilidade com que Lola falava das mensagens que chamou de “grotescas e ameaçadoras” que recebe por seus escritos e denúncias.

O nome dela completo é Dolores Aronovich Aguero, professora de Letras da Universidade Federal do Ceará, argentina que chegou ao Brasil ainda na infância e se naturalizou brasileira. “Vocês são nativos da internet, mas a nossa geração teve que aprender a lidar com esse universo, que alterou bastante as relações sociais. Antes do Orkut, dos blogs e outras redes sociais, eu debatia o machismo na sociedade, mas essas pessoas mais agressivas não faziam parte do meu círculo de convivência. Grupos que eu nem sabia que existiam, se revelaram com a internet, principalmente na parte não rastreada, a chamada deep web”, explicou Lola.

Lola começou um blog em 2008, chamado Escreva, Lola, Escreva. O título é uma paródia do filme Corra, Lola, Corra (1998), do diretor Tom Tykwer. Mas a Lola blogueira nunca imaginou que acabaria envolvida em uma trama policial por causa de seu ativismo feminista. Nesse mesmo ano, quando ela escreveu criticando a cobertura da imprensa e os comentários de pessoas sobre a morte de Eloá Cristina, um caso de grande repercussão, porque o sequestro da adolescente pelo namorado foi acompanhado pela mídia durante dias, ela conta que sofreu mais do que críticas normais para quem expõe uma opinião. “Foi um ataque de ódio em grupo. Percebi que não era um ódio pessoal, era um ódio às mulheres, era misoginia”, relatou a escritora.

A blogueira contou que recebeu muitas ameaças semelhantes, durante algum tempo, até descobrir que era monitorada em fóruns anônimos na deep web, a parte da internet não indexada, mais difícil para ser rastreada. “Esses grupos queriam que eu soubesse das ameaças do ódio que nutriam pelas feministas. Eles me deram o link e eu acompanhei durante quatro anos as mensagens mais aterradoras possíveis, incentivando o estupro e o assassinato de mulheres”, contou.

Lola Aronovich sofreu vários ataques como ter uma foto do blog com o conteúdo alterado e notícias falsas atribuídas a ela. “Durante todos esses anos de enfrentamento, recebendo ameaças, nunca me deixei abater, nunca fiquei intimidada, nem me afastei das minhas atividades de professora, palestrante e escritora. Mas confesso que fiquei abatida uma vez, quando as mensagens com o print falso do meu blog ‘viralizou’ e teve um alcance muito maior do que o meu verdadeiro blog. Fiquei pensando porque as pessoas espalham mais rapidamente o mal ao invés das notícias boas. Precisamos parar de dar mais relevância para o que é falso e disseminar as mensagens reais”, refletiu ela.

Em abril de 2018, foi criada uma lei inspirada na luta de Lola contra o ódio às mulheres manifestado na internet. A Lei Nº 13.642 recebeu o nome de Lola Aronovich e a blogueira foi convidada a debater a efetivação da investigação de crimes cibernéticos de misoginia na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na Câmara dos Deputados. Recentemente, Lola foi convocada para relatar seu drama diante dos parlamentares que compõem a CPI das Fake News. “Ter medo é um luxo que não podemos nos dar neste momento difícil que passa o nosso país”, concluiu Lola Aronovich.