Sem filtro e com muita história para contar a autora encantou o público 
Texto: Pedro Vianna
Imagens: Renner Boldrino



A 9ª Bienal Internacional do Livro trouxe, a professora e escritora Amara Moira para um bate-papo sobre sua vivência como mulher trans, promovendo também o seu livro E se eu fosse pura que fala sobre sua experiência como prostituta, seu processo de transição, entre outras reflexões transfeministas. O momento aconteceu na escadaria da Associação Comercial e foi o ponto alto da penúltima noite de bienal no último sábado (9).

A mesa contou ainda com a presença do Secretário-geral da Associação Cultural de Travestis e Transexuais de Alagoas (Acttrans) e também poeta, Cauê Assis e foi mediada por Milka Freitas que é membro do Comitê de Saúde LGBT do Estado de Alagoas. O momento contou ainda com a participação do Grupo Pé de Poesia que apresentou uma poesia criada por Cauê sobre Amara como uma homenagem.

Sobre o livro, Amara o explica como um recorte de uma época específica de sua vida e ainda como uma imersão de como é a realidade de uma travesti e transsexual nas ruas. “Como é lidar com tudo e isso e continuar existindo? Acho que é um texto que fala sobre um espaço onde mais se encontram pessoas trans na sociedade e por conta disso é preciso falar sobre ele, porque a gente está lá, nossos corpos também e é preciso que a sociedade imagine as coisas que a gente vive, sinta as nossas dores como dores de todo mundo e não só nossas”, conta.



“Ela desconstruiu para mim o que seria a palavra puta, porque quando eu me entendia como uma pessoa trans, eu não tinha referência nenhuma. Toda aquela que eu tinha era da prostituição das mulheres trans e era algo que eu via como pejorativo e queria estar distante daquilo. Com o passar do tempo eu fui entendendo que existem trans de várias outras posições, dentro da academia, médicas, psicólogas, assistentes sociais”, explica Cauê sobre como a escritora e amiga, Amara Moira o fez enxergar sua própria realidade.

A discussão contou uma ainda com a apresentação de um monólogo pela própria Moira, explicando um pouco do que seria o Pajubá (um dialeto muito popular entre as travestis). O momento foi fortemente aplaudido pelo público.

Amara explicou ainda que o convite para participar de uma bienal gratuita e que acontece nas ruas de um bairro histórico, foi algo muito interessante para ela que sonha em ver a mudança em como o país enxerga pessoas como ela. “Eu nunca tinha visto uma bienal nas ruas”, conta. “O Brasil é o país que mais mata pessoas trans, mas também é o país que mais consome pornografia envolvendo nossos corpos. Eu gostaria de imaginar que em algum momento, ele pudesse talvez se transformar no lugar que mais consome obras escritas por pessoas trans. Acho que essa é a estatística que eu quero ver no meu país”, completa.