Por: Cármen Lúcia Dantas

A IX Bienal extrapolou expectativas. Surpreendeu não apenas pela proporção e escala do espaço, mas pela circulação de sentidos que ocuparam e tomaram conta de Jaraguá, durante 10 dias.  Somados, a sensibilidade da organização e o engajamento maciço do público confirmam: lugar de cultura é na rua.

O evento provou que não há limites para o exercício pleno da cultura e da interação entre pessoas de diferentes idades e de todos os gêneros. Ao apostar no modelo extramuros, descartou-se o óbvio.  A aposta na integração entre leitura, história, arte, espaço urbano e identidade resultou em acerto e ousadia.  

Juntos, Bienal e povo, mostraram que Jaraguá está vivo. Respira a céu aberto. Permanece como reduto de arte e de resistência intelectual. A ocupação por livros e pessoas tem efeito de marco na possível retomada do bairro e no respeito à sua vocação cultural e boêmia.

Em tempos de políticas totalitárias e de apagamento social, as ruas do bairro histórico transformaram-se em meio de vazão e fluidez democrática. Fluxos de pessoas, afetos, poesias e prosas jorraram da Rua Sá e Albuquerque em direção a cantos e espaços esquecidos. Havia alegria em se festejar o livro, como produto necessário, possível e livre de qualquer censura. 

O sentido de pertencimento foi recuperado no imaginário de cada um de nós. Livros assumiram o efeito de acendedores de lampiões e, espalhados por toda parte, iluminaram uma outra ideia do lugar Jaraguá e atualizaram com sucesso as configurações de Bairro e de Universidade.

Lutar como uma Bienal, reduto de estímulo à leitura e ao conhecimento, significa resistir. Resistir com equidade e acolhimento. Resistência evocada pelas mãos dadas, pelo respeito às diferenças em todas as possibilidades de gênero, etnoraciais e de crenças. Livros e pessoas  ocuparam ruas e passeios.  Botamos nossos corpos políticos em evidência e cirandamos entre Valérias, Elviras, Lídias, Lígias, Anastácios, e enxergamos a possibilidade de um mundo mais pacífico e generoso.

Tamanha potência ficou em cada uma e em cada um de nós. Ninguém soltou a mão de ninguém. E assim será. Não aceitaremos nenhum livro a menos.
A resistência é o legado da IX Bienal do Livro de Alagoas. Resistiremos, sempre!

*Cármen Lúcia Dantas é alagoana de Penedo, museóloga, mestra em literatura e profa. aposentada da UFAL. Autora de vários livros sobre a cultura de Alagoas,dirigiu  por vários anos o Museu Théo Brandão e foi superintendente do IPHAN-AL.