Homenagem foi colocada no prédio onde, hoje, funciona uma forrozeira e tem como dona a única moradora da Rua Sá e Albuquerque



Texto: Patrícia Mendonça
Fotos: Thiago Prado


Aproveitando a movimentação no bairro do Jaraguá, trazida pela 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, uma homenagem chamou a atenção do público na noite desta sexta-feira (8), na Rua Sá e Albuquerque. A placa da ‘rapariga desconhecida’ foi reinstalada em seu devido lugar, no prédio do popular Beco da Rapariga, marcando mais um capítulo dessa história.

É que há anos a chapa de metal — confeccionada em homenagem às mulheres que movimentaram a vida boêmia no bairro de 1900 a 1969 — foi arrancada por religiosos acusados de intolerantes. O beco, durante anos, ficou sem a identificação defendida pelos entusiastas do local.   

A história é a seguinte: passados os ‘anos dourados’, período de efervescência no comércio, cultural e populacional do Jaraguá, um grupo nomeado de Confraria dos Sardinhas, formado por frequentadores, boêmios, intelectuais e, parte deles, moradores do bairro, instalaram uma placa em homenagem às prostitutas que passaram cerca de 70 anos fazendo história e conservado, involuntariamente, a arquitetura local.

A famosa placa ficava na parte externa do prédio que hoje voltou a abrigá-la. Só que há alguns anos o local se tornou uma igreja, que não concordou com a homenagem e retirou a placa, dando a ela um destino desconhecido. A situação despertou a inquietação dos ‘amantes’ do bairro que logo trataram de confeccionar uma nova homenagem.

“Os religiosos da igreja Assembleia de Deus alugaram a casa e se acharam no direito de tirar a placa que instalamos. Mas agora a casa é de uma forrozeria, então, nós fomos falar com a dona do estabelecimento sobre a possibilidade da reinstalação e ela ficou vibrante. A própria mandou fazer a placa”, disse Carlito Lima, homem que entre suas ocupações, conta com paixão as histórias do bairro onde nasceu e cresceu.

A empresária que apoiou a causa, Juliana Montenegro, conhece bem essa história pelo próprio vínculo com o Jaraguá. Hoje, ela e a família são os únicos moradores da emblemática Rua Sá e Albuquerque. “Nasci e fui criada neste bairro, sou apaixonada por este lugar. Eu já sabia da existência da placa e, como admiradora deste local que sou, senti falta dela. Afinal, a placa representa muitas histórias que aqui ocorreram”, pontuou a empresária.

“O que me motivou para a reinstalação foi, principalmente, a intolerância dos que se dizem religiosos; mas também foi pela representatividade da mesma para a história deste lugar; pelo meu interesse e luta pela revitalização do Jaraguá; e, em especial, pelo amor que sinto por aqui”, disse Juliana Montenegro, cheia de orgulho.


Funcionamento dos cabarés preservou os casarões

Considerado um dos mais agradáveis, movimentados e disputados bairros de Maceió, apesar do Jaraguá não ter sido apenas um lugar de cabarés e prostituição — situação que durou apenas algumas décadas no bairro centenário — esta é a fama que carregada até hoje.

Para os mais novos é difícil imaginar que o Jaraguá tinha a Praia da Avenida e o Riacho Salgadinho limpos, moradores nas portas das casas, músicas, festas e segurança. No entanto, de acordo com o Carlito Lima, o cenário começou a mudar quando, na década de 70, houve a determinação do governo para retirar todas as boates e transferir para o bairro Canaã: “Aí começaram a derrubar os casarões”, lembrou Carlito.

“Eu, Zélia Maia Nobre, Pierre, Solange Chalita e outros, fizemos um movimento cobrando do governador o tombamento do Jaraguá. E assim o foi feito. Mas antes que isso acontecesse, o bairro foi bastante deteriorado, prédios incríveis foram derrubados para a construção de prédios mais modernistas”, explicou Carlito, alertando que para construir ali, tem que preservar a fachada, entre outras medidas de conservação.

Hoje o bairro é um patrimônio arquitetônico e histórico de Alagoas, que por muito tempo sofreu com esquecimento e o abandono das gestões públicas. Por conseqüência, a população passou a não se sentir pertencente nem dona daquele lugar.

Mas o bairro centenário está ganhando ‘vida’ novamente. Nos últimos dias se encheu de pessoas, arte e cultura. Movimento proporcionado pela 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas e, a expectativa dos amantes do lugar é que essa ocupação não seja passageira e que o Jaraguá não retorne ao esquecimento.