Por: Otávio Cabral*

A Universidade Federal de Alagoas proporcionou a todos os que compareceram à 9ª Bienal Internacional do Livro, no período de 1º a 10/11/19, a oportunidade de consumir um dos produtos mais detestados e perseguidos pelo atual governo: os bens culturais. Frequentei a Bienal tanto para participar artisticamente quanto para frequentar e usufruir da beleza do bairro de Jaraguá, inteiramente tomado pela juventude, ávida por consumir o que ali estava sendo oferecido. O mais gratificante é que naquela rua, com seus armazéns e casarões antigos, encontrava-se uma juventude à cata de livros, numa cidade onde as livrarias estão fechando. Além das ofertas culturais, que eram muitas, ainda foi possível se usufruir, na escadaria da Associação Comercial, com seu estilo neoclássico, edificado pela burguesia comercial como demonstração do poder econômico, das mesas temáticas, que deram o tom de resistência política.

Não tenho dúvida de que esta Bienal se inscreve como a mais bela e mais charmosa, justamente por valorizar o tradicional bairro portuário, tão bonito, mas ao mesmo tempo tão esquecido e tão carente de uma revitalização. Creio que a partir de agora, dois fatos ficarão evidentes: o primeiro diz respeito à Universidade, que doravante não poderá realizar as futuras bienais em outro local que não naquele bairro; o segundo foi demonstrar para o município o potencial do local e a necessidade de se realizar mais ações culturais naquela localidade.

É sempre muito bonito e bom ver o povo nas ruas, portanto, quanto mais se propuserem ações que o coloquem nas ruas, mais se exercitará o verdadeiro significado da palavra cidadania. Nesse sentido, a nossa universidade deu uma lição não apenas de cidadania, mas de democracia e de respeito às liberdades individuais. Particularmente, vivenciei três momentos importantes e emocionantes: o primeiro, quando realizei juntamente com a atriz Ticiane Simões, e com a participação das instrumentistas Miran Abs no violoncelo e Manu Preta no atabaque, o recital de poesia moçambicana. 

Foi um momento de rara beleza e emoção porque estávamos disponibilizando uma pequena mostra da bela poesia do continente africano, com o qual temos uma imensa dívida, recheada de dor, injustiça e covardia, e que se estende até hoje através de nossos irmãos negros. O segundo momento, quando na mesa Memória, Verdade e Justiça li a carta do Sr. Manoel Simplício, pai do desaparecido político Jaime Miranda, dirigida ao Presidente da República e ao Ministro da Justiça e reivindicando o direito de, antes de morrer, enterrar seu filho. Foi particularmente difícil interpretar a carta, justamente por me trazer à memória os fatos vividos por nove longos dias na busca ao corpo do meu filho, assassinado pela impunidade, pela desigualdade e pela violência urbana. O terceiro foi quando presenciei o mar de gente tomando conta da rua, a partir das escadarias, para ouvir a lição de democracia, de crença no ser humano, e de respeito à diferença, pela ex-candidata a vice-presidente da república, Manuela D’Avila.


Por todas essas razões, a atual gestão, e principalmente aqueles que conduziram a 9ª Bienal Internacional do Livro, lega para a posteridade esse evento como sendo a Bienal da Resistência.


* Ator, professor do curso Teatro Licenciatura e vice-diretor do ICHCA